“A FoodTech NotCo lançou a campanha publicitária “Bichinhos NotMilk”, uma releitura da icônica campanha “Mamíferos” da Parmalat, utilizando o humor e a nostalgia para promover o NotMilk, um produto plant-based como uma alternativa aos produtos lácteos de origem animal. Se por um lado, a empresa usa – e pode usar o humor para promover seus produtos – há técnicos como eu, que têm o receio de que campanha possa contribuir para o reforço de percepção errônea – que infelizmente já vai virando mito – de que o leite de vaca “faz mal” para todo mundo.
🧬 A mutação que mudou tudo
Ora, faz mal para quem não tem a enzima lactase e/ou para quem a tem em níveis reduzidos. A história do leite é um exemplo fascinante de como biologia, cultura, evolução e nutrição se entrelaçam. Há cerca de 10 mil anos, especialmente na Europa Ocidental, houve uma mutação que permitiu que parte da população continuasse a produzir lactase na idade adulta. Esse traço genético, chamado de persistência da lactase, foi favorecido pela seleção natural. Isso trouxe para alguns povos e/ou regiões uma vantagem competitiva, em paralelo à domesticação de animais, pois que passaram a consumir leite regularmente com maior facilidade de acesso a nutrientes importantes (gordura, proteínas, cálcio, vitamina D).
🍼 Intolerância à lactose
Para quem não sabe: o leite humano contém lactose, o principal carboidrato (açúcar) do leite de nossa espécie, e é também um componente importante de outros leites de mamíferos. A deficiência congênita de lactase é uma doença rara, embora eu não tenha conseguido facilmente o dado exato sobre sua incidência. Essa condição é mais comum na Finlândia, onde afeta cerca de 1 em cada 60.000 recém-nascidos.
O que ocorre é que cerca de 65% da população humana do mundo apresenta capacidade reduzida de digerir lactose após a infância. Depois da infância, quem tem o traço genético da persistência da lactase, continua a produzir lactase na fase adulta. O traço genético de não persistência da lactase é mais prevalente em pessoas de ascendência oriental, mas também em pessoas de ascendência ocidental, por exemplo, africana e árabe.

Não é porque 65% da população humana do mundo não tem esse traço genético de persistência da lactase, que significa que 65% da população de uma região, etnia ou/ ou cultura terá essa mesma porcentagem!!! Por exemplo, apenas cerca de 5% das pessoas de ascendência do norte da Europa são de traço genético “lactase não persistente”.
Vale notar que outros fatores impactam na maior ou menor tolerância à lactase: a microbiota intestinal tem também um papel importante. Dennis Savaiano, da Purdue University Life Science mostrou que pode haver surpreendente adaptação do intestino grosso: “Alterando a dieta ao longo do tempo, bactérias que digerem a lactose tornam o leite mais tolerado”.
(Fonte: https://www.purdue.edu/uns/html4ever/1997/9712.Savaiano.intolerance.html)
❓Mas então qual é o “embroglio”?
Não é que a NotCo não possa comunicar os benefícios do produto para quem de fato deles necessita e/ou quer. Mas o receio é que a campanha possa ajudar a incentivar o incorreto modismo nutricional de “lactose” é ruim, como se isso fosse uma verdade absoluta. E isso pode até incentivar a compra de lácteos sem lactose e desviar o foco do plant-based NotMilk, objeto da campanha.
Esse modismo vem sendo criado por médicos, nutricionistas e nutrólogos mal-informados que por vezes, na primeira suspeita de intolerância à lactose, já “carimbam” o problema do paciente com diagnóstico incorreto, sem fazer um teste clínico de tolerância à lactose, que avalia a resposta do organismo após a ingestão de lactose, cientificamente mais controlada e sem outros vieses. É muito usual que esse diagnóstico venha após o paciente suspender os lácteos -com-lactose-presente-naturalmente durante alguns meses e avaliar o seu efeito sem que seja possível um bom um controle sobre outros fatores. E assim vai criando a onda fake de que “sem lactose” é sempre melhor.
🌍 CONCLUSÕES
Sabemos que certamente a NotCo não teve a intenção de causar esse efeito colateral, mas nós técnicos não podemos deixar que o MITO FAKE de que leite faz mal” seja espraiado sem o contraponto da realidade científica, pois que é uma parte – e não o todo – da população que tem de fato intolerância à lactose.
NOTA FINAL: algo que sempre nos preocupa na Food Design nos produtos “sem lactose” têm o nível de glicose aumentado, pois para a retirada da lactose de faz tratamento enzimático quebrando a lactose em glicose e galactose – os dois açúcares que a compõem. E como não há obrigação legal de colocar isso no rótulo (que achamos que deveria haver), pode haver profissionais desavisados que não estão atentos a alertarem seus pacientes pré-diabéticos ou diabéticos.
Nota da Food Design Newsletter: esse artigo foi produzido com o melhor de nosso conhecimento, sem a pretensão da produção de um artigo científico. Caso algum profissional, acadêmico ou não, tenha dados e evidências que com robustez se contraponham ao que aqui foi divulgado, muito agradecemos se nos enviarem suas observações, que uma vez recebidas e analisadas poderão levar à revisão do artigo.