RESUMO
A Resolução (UE) 2024/319 da União Europeia publicada sobre o Bisfenol em dezembro de 2024 proíbe o uso de BPA, incluindo seus sais, em materiais destinados ao contato com alimentos, como plásticos, adesivos, tintas e resinas dentre outros. A proibição afeta não apenas mamadeiras, mas também embalagens alimentícias e produtos como cosméticos e papel térmico. A ingestão diária aceitável (IDA) foi reduzida em 20.000 vezes, para 0,2 ng/Kg de peso corporal. Empresas terão 18 meses para adaptar seus processos, buscando alternativas seguras ao BPA.
✅ Geral
Os bisfenóis são um grupo de substâncias amplamente utilizadas, principalmente em de plásticos e resinas, com ampla aplicação em materiais de embalagem, devido às suas inúmeras propriedades em diversas aplicações, tais como:
- Vernizes e revestimentos em latas, tampas e membranas “peel-off”.
- Garrafas à base de policarbonato e polisulfona.
- Aditivos como estabilizantes e antioxidantes utilizados em adesivos de laminados, bem como em tintas, silicones, borrachas e retardantes de chamas.
✅ Bisfenol A em embalagens de alimentos e bebidas
O Bisfenol A (BPA) é um bisfenol amplamente utilizado em embalagens de alimentos e bebidas devido às suas propriedades únicas, que garantem durabilidade, resistência ao impacto e ao calor.
Usos mais comuns:
- Na fabricação de policarbonato: policarbonatos são polímeros termoplásticos, de cadeia longa, formados por grupos funcionais unidos por grupos carbonato (-O- (−O−(C=O)−O−). Têm semelhança ao vidro, sendo mais resistentes ao impacto, com aplicação em diferentes tipos de embalagens, como garrafas plásticas, recipientes de armazenamento de alimentos e bebidas. Eram usados em mamadeiras, o que foi proibido (ver parte Regulamentação.)
- O BPA é um componente essencial na fabricação de policarbonato, por aumentar a resistência a quebras e a transparência.
- Nas resinas epóxi usadas como revestimentos internos em latas de alimentos e bebidas, criando uma barreira eficaz contra a corrosão e a migração de substâncias do metal para os alimentos, protegendo-os contra oxidação e contaminação, preservando seu sabor e sua qualidade por mais tempo.
- A estabilidade térmica do BPA permite que seja utilizado em produtos que exigem exposição a variações de temperatura, como alimentos congelados.
✅ Toxicologia do Bisfenol A – visão geral
O Bisfenol A vinha sendo usado para embalagens de alimentos e bebidas desde a década de 1960. Com os avanços da toxicologia, os efeitos do BPA na saúde humana como um disruptor endócrino* começaram a ser mais amplamente discutidos a partir de meados da década de 1990, quando um estudo-chave que estabeleceu essa associação foi publicado em 1996 por Shanna Swan e Colborn. Desde então, as consequências da exposição ao BPA vêm sendo acompanhadas por pesquisadores, instituições de pesquisa e órgãos regulamentadores, através de estudos em animais. O BPA tem sido considredo um contaminante emergente. As pesquisas têm demonstrado que o BPA e outros produtos químicos têm ocasionado efeitos negativos sobre uma grande variedade de processos fisiológicos na saúde humana. Esses efeitos incluem a possibilidade de afetar a fertilidade, desenvolvimento neurológico, além de poderem estar relacionados a doenças como câncer de mama, próstata e problemas metabólicos. Estudos das exposições durante a gravidez e a infância são particularmente preocupantes devido ao impacto potencial no desenvolvimento do cérebro e na função hormonal.
Em 2015, a European Food Safety Authority (EFSA), ou seja, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, estabeleceu uma dose diária tolerável temporária de BPA e em 2016 reavaliou os riscos para a saúde pública decorrentes da presença de BPA nos alimentos e estabeleceu uma dose diária tolerável (TDI). “Levando em consideração as evidências de dados em animais e o apoio de estudos observacionais em humanos, o sistema imunológico foi identificado como o mais sensível à exposição ao BPA”. Dentre as conclusões, em considerando-se as evidências de dados em animais e o apoio de estudos observacionais em humanos, o sistema imunológico foi identificado como o mais sensível à exposição ao BPA. (Referência 4.)
O PROJETO DE BIOMONITORIZAÇÃO HUMANA HBM4EU: realizado de 2017 a 2022, este projeto gerou dados de biomonitorização humana harmonizados a nível europeu sobre a ocorrência de substâncias químicas na população europeia e os impactos associados na saúde. Os dados de biomonitorização humana mais recentes do HBM4EU corroboram a conclusão da AESA de que existe uma preocupação de saúde para os europeus decorrente da exposição ao BPA. … Os dados de biomonitorização sobre os níveis de BPA na urina humana mostram que a exposição continua a ser demasiado elevada, apesar das medidas regulamentares introduzidas desde 2015. (Referência 7.)
O HBM4EU é um consórcio europeu, com a participação de 30 países, coordenado pela European Human Biomonitoring Iniciative. Esta iniciativa tem por objetivo utilizar a biomonitorização humana para avaliar a exposição humana a substâncias químicas para uma melhor compreensão dos impactos associados na saúde e à melhoria da avaliação dos riscos químicos.
✅ Regulamentação
Apesar das evidências crescentes, a toxicidade do BPA ainda é objeto de debate e não há uma harmonização ao nível mundial da regulamentação. A EFSA e a FDA, Food and Drug Administration dos Estados Unidos realizaram suas avaliações e estabelecem limites seguros de exposição, mas a comunidade científica continua a investigar os efeitos do BPA, especialmente devido à sua agora sabida onipresença em produtos do cotidiano: além da migração de embalagens, outras fontes não alimentares de exposição ambiental devido a vários outros usos do BPA, como por exemplo papel térmico e cosméticos, tem contribuído para o aumento da exposição humana a esse contaminante.
#Regulamentação no Brasil
O uso Bisfenol A (BPA), é permitido no Brasil, porém com algumas restrições. A ANVISA Agência Nacional de Vigilância Sanitária, proibiu o uso de BPA na fabricação e importação de mamadeiras de policarbonato destinadas à alimentação de lactentes com a Resolução RDC 41/2011 em vigor desde janeiro de 2012.
Entretanto, o BPA ainda é permitido em outros tipos de produtos, como embalagens plásticas e revestimentos internos de latas de alimentos e bebidas. Mas como o BPA pode migrar da embalagem para o alimento, resultando na exposição dos consumidores, deve ser respeitado o limite máximo de migração específica de 0,6 mg/kg de alimento.
#Regulamentação na União Europeia (UE)
Histórico
👉🏽Até 2018
Até 2018 a UE e Anvisa seguiam as mesmas diretrizes, incluindo o limite de migração específica do BPA de forma harmonizada. Contudo, com base em uma nova avaliação de risco toxicológico da EFSA considerando novos estudos e maior segurança, a UE estabeleceu o regulamento (EU) 2018/213, que estabelece que:
- Permanece a proibição da presença de BPA em mamadeiras de policarbonato para lactentes
- Mas o limite máximo de migração específica (LME) de BPA, para maior segurança, ficou mais restritivo: de 0,05 mg/kg de alimento, aplicável a materiais de embalagens alimentícias plásticas, vernizes e revestimentos à base da resina epóxi BPA, especialmente em latas.
- NÃO é tolerado qualquer nível de migração de BPA a partir de vernizes ou revestimentos aplicados a materiais e objetos especificamente destinados ao contato com os seguintes produtos: Fórmulas para lactentes e fórmulas de transição. Alimentos transformados à base de cereais. Alimentos para fins medicinais específicos, bem como bebidas lácteas e produtos semelhantes, especificamente destinados a crianças.
👉🏽 A partir de dezembro de 2024 – Resolução (UE) 2024/3190:
Considerando que a toxicologia é uma ciência dinâmica, baseada em novas evidências e na necessidade de resolver incertezas remanescentes sobre a toxicidade do BPA, levando em conta os resultados de novos estudos e dados científicos que identificaram que o BPA como tóxico para o sistema imunitário para todos os grupos da população, a EFSA publicou um novo parecer científico. Nessa última reavaliação a EFSA estabeleceu uma Ingestão Diária Aceitável (IDA) de 0,2 nanogramas por quilograma (ng/Kg) de peso corporal, valor 20.000 vezes inferior à IDA anterior.
👉🏽👉🏽 Principais destaques da Resolução (UE) 2024/3190:
- Altera o Regulamento (UE) no 10/2011 e revoga o anterior Regulamento (UE) 2018/213.
- Proíbe a utilização de BPA, incluindo seus sais, na fabricação de materiais e objetos destinados ao contato com alimentos, tais como adesivos, borrachas, resinas de troca iônica, plásticos, tintas de impressão, silicones e vernizes e revestimentos.
- Até o momento não é possível estabelecer um método confiável para quantificar a migração de BPA em razão da dificuldade em estabelecer um limite máximo específico de migração, devido ao novo valor da IDA. Consequentemente, a proibição do uso de BPA também se aplica a embalagens destinadas ao público adulto.
- Há a necessidade de buscar alternativas no mercado de substâncias que possam substituir de forma segura o BPA na fabricação de materiais de contato direto com alimentos.
- Em situações de grande desafio para sua substituição, seja pela falta de alternativas tecnológicas ou econômicas, as derrogações são passíveis de aceitação, sendo que a presença de BPA residual deve ser evitada ou reduzida a quantidades negligenciáveis, seguindo as Boas Práticas de Fabricação.
- A utilização de outros bisfenóis ou seus derivados, como monômeros ou outras substâncias iniciadoras, NÃO deve resultar na presença de BPA livre nos materiais ou objetos destinados ao contato com alimentos.
- A substituição do BPA em embalagens deverá ocorrer dentro de um período de transição de 18 meses após a entrada em vigor da resolução, ou seja, vigésimo dia seguinte ao da sua publicação no Jornal Oficial da União Europeia (JOUE.)
- A Declaração de Conformidade é um documento obrigatório nos países membros da UE -União Europeia, para assegurar que os materiais e objetos destinados ao contato com alimentos estejam em conformidade com todas as resoluções pertinentes ao material utilizado. Trata-se de uma declaração escrita que segue o regulamento 1935/2004, atestando o cumprimento das regras aplicáveis. Empresas que exportam para a UE também devem seguir esses critérios.
*Nota: O que é disruptor endócrino? É um termo que se refere a substâncias que podem interferir com os hormônios naturais do corpo, como estrógenos (hormônio sexual feminino), andrógenos (hormônio sexual masculino) e hormônios da tireoide. O BPA é capaz de se ligar a receptores hormonais e alterar processos fisiológicos como se “imitasse” hormônios ou parte destes, produzindo potencial superestimulação e bloqueando a ligação endócrino-hormonal normal.
🔗LINK para a Resolução (UE) 2024/3190:
https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=CELEX%3A32024R3190&qid=1738625128499
#Regulamentação nos Estados Unidos
Apenas para fins de comparação, segue o estágio atual da regulamentação do Bisfenol A para embalagens de alimentos do Estados Unidos:
- A FDA Food and Drug Administration, em julho de 2012 alterou seus regulamentos banindo o uso de resinas de policarbonato à base de BPA em mamadeiras e copos com canudinho – conforme =gt; Indirect Food Additives: Polymers 21 CFR Part 177.
- E em 2013, a FDA baniu o uso de resinas epoxi à base de BPA como revestimentos em embalagens de fórmulas infantis => Indirect Food Additives: Adhesives and Components of Coatings 21 CFR Part 175.
COMO A FOOD DESIGN PODE AJUDAR?
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Referências Bibliográficas:
- Pérez, Mary Angela, 2012. O Bisfenol A e as Legislações para Contato com Alimentos. Boletim de Tecnologia e Desenvolvimento de Embalagens – CETEA (Instituto de Tecnologia de Alimentos), vol. 24, número.
- Commission Regulation (EU) 2024/3190 on the use of bisphenol A (BPA) and other bisphenols and bisphenol derivatives with harmonised classification for specific hazardous properties in certain materials and articles intended to come into contact with food.
- European Food Safety Authority (EFSA). “Scientific Opinion on the risks to public health related to the presence of bisphenol A (BPA) in foodstuffs.” EFSA Journal, 2015.
- European Food Safety Authority (EFSA).Re‐evaluation of the risks to public health related to the presence of bisphenol A (BPA) in foodstuffs, EFSA Journal, Published: 19 April 2023 – https://www.efsa.europa.eu/en/efsajournal/pub/6857
- World Health Organization (WHO). “Bisphenol A in Food and Drinking Water.” WHO Food Safety Unit Report, 2017.
- Talsness, C. E., et al. “Bisphenol A: An endocrine disruptor in the environment and in the body.” Reviews on Environmental Health, 2009.
- European Environment Agency: https://www.eea.europa.eu/pt/highlights/a-exposicao-do-publico-ao (publicado 2024-02-01 modificado pela última vez 2024-02-02).