A polêmica do aspartame explicada tim-tim por tim-tim
Em maio do corrente ano, 2023, a OMS – Organização Mundial da Saúde lançou uma nova diretriz sobre adoçantes sem açúcar, recomendando o não uso de adoçantes para controlar o peso corporal ou para reduzir o risco de doenças não transmissíveis (DNTs). Daí começou a ter gente achando que a OMS “proibiu” o uso de adoçantes, sendo que reconhecer que seu uso não tem efeito para controlar o peso corporal, nem para reduzir risco de DNTs, tais como doenças cardíacas, câncer e diabetes, que juntas com doenças pulmonares crônicas são as principais causas de morte em todo o mundo, é algo diferente!!!
O aspartame é um adoçante não nutritivo artificial com uma quantidade extremamente pequena de carboidratos, sendo um dos aprovados pelo FDA dos Estados Unidos e também pela Anvisa do Brasil. Existem outros adoçantes não nutritivos aprovados, alguns sem calorias, que podem ser ainda mais doces. Na maioria das vezes, os fabricantes combinam vários tipos de adoçantes em bebidas e alimentos dietéticos para criar um sabor único e agradável.
A discussão: o aspartame é cancerígeno?
A Agência IARC – International Agency for Research on Cancer informou à OMS – (Organização Mundial de Saúde) , após ter avaliado 1.300 estudos em sua revisão de junho, estabeleceu que o aspartame deveria ser classificado como “possivelmente carcinogênico para humanos”, por sua possível ligação com um determinado tipo de câncer de fígado.
Aí muita gente já saiu falando que não se pode usar aspartame porque seria cancerígeno, só que não é bem assim!!!
Mas se é “possivelmente carcinogênico”, isso não quer dizer que é carcinogênico? Como assim?
Primeiramente há que se notar que PERIGO é diferente de RISCO.
– PERIGO é o potencial da carcinogenicidade do agente baseado na FORÇA das evidências científicas
– RISCO de câncer varia de acordo com o nível de exposição do perigo.
Classificação pela IARC dos perigos quanto à carcinogenicidade
A IARC avalia as substâncias quanto ao PERIGO de carcinogenicidade, estabelecendo uma classificação de quatro níveis diferentes: “cancerígeno, provavelmente cancerígeno, possivelmente cancerígeno e não classificável”.
Pois bem, o aspartame foi classificado pela IARC como “possivelmente carcinogênico”, que é quando há evidências limitadas e não convincentes de câncer em humanos ou evidências convincentes de câncer em animais experimentais, mas não em ambos.
Para que o leitor possa ter melhor ideia, comparando com um outro exemplo de classificação feita pela IARC: carnes processadas (tais como salsicha, presunto, corned beef e jerked beef) têm classificação como “cancerígeno”, pois nesse caso há evidências suficientes de estudos epidemiológicos de que comer carne processada causa câncer colorretal.
Avaliação de risco pelo JECFA
O JECFA – Expert Committee on Food Additives é um comitê internacional de especialistas científicos administrado em conjunto pela FAO -Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação e pela OMS. É mundialmente reconhecido pela comunidade científica de alimentos como a entidade responsável pela avaliação de risco para produtos químicos em alimentos, e por estabelecer alterações do limite considerado seguro. Reúne-se desde 1956 para avaliar a segurança de aditivos alimentares, contaminantes, substâncias tóxicas de ocorrência natural e resíduos de medicamentos veterinários em alimentos. Durante recente reunião do Comitê Executivo da Comissão do Codex Alimentarius em Genebra, ocorrida em julho, foi apresentada elo JECFA uma avaliação de risco atualizada e abrangente sobre o aspartame. A atualização para aspartame manteve o IDA – Ingestão Diária Aceitável como seguro entre zero a quarenta mg/kg de peso corporal, mesmo limite utilizado desde 1980. Isso foi feito com base na exposição à substância na vida real e levando-se em consideração que o aspartame é incluído em vários produtos, dentre os quais os refrigerantes dietéticos.
Resumindo:
a) A IARC busca estabelecer se há alguma evidência de que uma substância é um PERIGO POTENCIAL e a seguir a JECFA avalia quanto o RISCO real essa substância representa e com base nesse risco define a IDA.
b) O Comitê Executivo do Codex Alimentarius destacou que as avaliações de risco realizadas pelo JECFA são mais completas e incluem todos os dados disponíveis, enquanto as avaliações da IARC são limitadas à IDENTIFICAÇÃO DE PERIGOS.
CONCLUSÃO
Desde que usado dentro do limite considerado seguro pelo JECFA, nada mudou: o aspartame pode continuar a ser usado como vinha sendo usado, o que pode ser útil especialmente para diabéticos poderem consumir produtos de sabor doce sem açúcar adicionado com o objetivo de “beneficiar o controle glicêmico pós-prandial” e que o tipo de adoçante seja escolhido de forma individualizada ou conforme indicado pelo nutricionista ou outro profissional de saúde especialista no tratamento de pessoas com Diabetes”, conforme a SBD – Sociedade Brasileira de Diabetes.
NOTA
As avaliações da IARC e do JECFA foram baseadas em dados científicos coletados de diversas fontes, incluindo artigos revisados por pares e relatórios governamentais. Ambos os comitês tomaram medidas para garantir a independência e a confiabilidade de suas avaliações.
Autores:
- Ellen Lopes, Ph.D. CEO do Food Design Group e Presidente do IFDrs
- Giovanna Madeira, Operações Técnicas do Food Design Group
Fontes:
- https://www.paho.org/pt/noticias/14-7-2023-divulgados-os-resultados-da-avaliacao-riscos-e-perigos-do-aspartame
- https://www.fao.org/fao-who-codexalimentarius/news-and-events/news-details/en/c/1644807/
- https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2023/oms-divulga-resultados-da-avaliacao-de-perigo-e-risco-do-aspartamehttps://monographs.iarc.who.int/news-events/iarc-monographs-evaluation-of-the-carcinogenicity-of-aspartame-methyleugenol-and-isoeugenol/
- https://monographs.iarc.who.int/news-events/iarc-monographs-evaluation-of-the-carcinogenicity-of-aspartame-methyleugenol-and-isoeugenol/
- https://diabetes.org.br/parecer-do-departamento-de-nutricao-da-sociedade-brasileira-de-diabetes-sobre-o-uso-de-adocantes/
- https://edition.cnn.com/2023/07/13/health/aspartame-sweetener-explained-wellness